Cultura de doação: como estimular as pessoas a adotarem esse comportamento?

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Você sabia que existe um ranking que elenca os países mais solidários do mundo? Pois é, ele existe. E o Brasil ocupa a 75ª posição, entre as 139 nações que fazem parte dele. Esse dado indica que o potencial solidário do brasileiro precisa ser estimulado. Mas a questão que vem é: como estimular a cultura de doação no país.

Vivenciamos um momento histórico que evidencia a importância de uma sociedade civil bem articulada para promover bem-estar e qualidade de vida para a população. Porém, não existe organização da sociedade civil forte sem doação. E, por isso, é essencial que as pessoas compreendam que não existe uma solução mágica para gerar resultados, a não ser o comprometimento de cada cidadão com a construção de caminhos que gerem resultados melhores e mais justos para todos.

Precisamos de OSCs que sejam capazes de nos representar e lutar pelas mais diversas causas, a fim de promoverem a igualdade de direitos e defesa de bandeiras que nem sempre recebem o apoio necessário dos órgãos públicos ou mesmo das empresas privadas.

O primeiro passo para conquistar uma doação é estimular pessoas a encontrarem suas causas

Antes de contribuir financeiramente com uma causa, é normal que as pessoas se perguntem como serão empregados os recursos que irão disponibilizar para as OSCs. Para isso, é importante que você sempre deixe muito claro aos possíveis colaboradores as seguintes questões:

  • Qual é a causa com a qual você trabalha e porque ela é importante à sociedade.
  • Como serão empregados os recursos conquistados via doações e quais serão os reflexos dele em abordagens práticas da sua atuação.
  • Por que você precisa da contribuição dele e como ela impactará para o crescimento dos seus resultados positivos.
  • Os eventuais benefícios que cada doador pode conquistar por meio da contribuição, mesmo os emocionais.

Mas, para que a campanha seja efetiva, é imprescindível que as organizações estejam preparadas para receberem os recursos. Para isso, uma dica é estar sempre atualizado com o cadastro no Mapa das OSCs do IPEA – já que ele é um dos caminhos indicados para que o doador encontre a organização e com seu próprio site com as seguintes informações: a causa; uma explicação clara do que é feito pela causa; os resultados alcançados; uma chamada/ convite para ação (que pode ser uma doação, uma parceria, um voluntariado).

Os dados das doações

De acordo com um levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa GFK, 29% dos brasileiros doam parte de suas finanças, anualmente. Ainda que este percentual esteja abaixo dos europeus (36%) e dos americanos (41%), a tendência é de crescimento, o que demonstra que a cultura de doação está crescendo entre os brasileiros, especialmente entre indivíduos de classe média.

Outra pesquisa desenvolvida pela IPSOS e pelo IDIS aprofunda um pouco mais o perfil do doador brasileiro. Apesar da tendência de doação estar crescendo, a maior parte ainda vão para pedintes e Igrejas. As doações para OSCs ainda representam somente 14% do montante total.

Dentre os focos de doação, crianças e idosos representam as maiores causas. Saúde e educação também são importantes razões para a filantropia.

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Mas, em contrapartida, quando paramos para analisar os motivos apresentados pelas pessoas que não realizam nenhum tipo de doação, nos deparamos com o seguinte cenário:

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Como mudar esse cenário?

A predisposição de doar dinheiro é maior quando comparada a doar tempo. Para a grande maioria dos brasileiros, existe a vontade de doar dinheiro e contribuir financeiramente para causas sociais. Mas a solidez da economia nacional ainda é muito frágil e muito atrelada às transições políticas e especulações que o Brasil sofre. Dessa forma, as pessoas temem ter que, em breve, parar de doar para a OSC escolhida por um momento de crise, perda de emprego, etc. Ou seja, a instabilidade econômica do Brasil está intrinsecamente ligada à confiança e tranquilidade das pessoas para poderem se planejar e se tornar mais solidárias.

Além disso, a falta de investimento em infraestrutura e mobilidade faz com que uma grande parcela de brasileiros gaste entre três e quatro horas somente no deslocamento de ida e volta do trabalho. Somando-se a isso a carga de trabalho média de um trabalhador comum, temos entre onze e doze horas do dia tomadas por atividades laborais, sem contar as demais responsabilidades cotidianas (família, estudos, aprimoramento profissional, etc) que estão na lista de prioridades das pessoas e a jornada de trabalho pouco flexível do Brasil. Assim, a disponibilidade das pessoas em realizar trabalhos voluntários no Brasil acaba sendo muito menor do que em países com uma cultura de doação evoluída.

A cultura de doação, como já dito anteriormente, é um dos elementos fundamentais para a construção de uma consciência coletiva, pois o ato de doar altera a percepção da realidade das pessoas e cria um senso de urgência muito mais forte naqueles que, de alguma forma, realizam doações.

Inclusive, vale mencionar que a política de isenção de imposto de renda para empresas incentiva mais empresas do que pessoas a doarem para ONGs. Por este motivo, as empresas são responsáveis por quase 90% das doações a entidades filantrópicas. Enquanto que, nos Estados Unidos, o segundo país no ranking do World Giving Index, mais de 80% das doações são realizadas por pessoas físicas. Um cenário completamente inverso ao nosso, mostrando a existência de uma consciência coletiva voltada para agir para solucionar problemas e mazelas sociais.

Ao pensarmos em como reverter isso, não podemos falar de uma única solução, mas um conjunto de fatores que são necessários para que as pessoas sintam-se empoderadas e capazes de contribuir. Mudanças na legislação para facilitar o recebimento de doações, educação sobre solidariedade e inclusão e o empreendedorismo social são formas de, tanto o governo, quanto a própria população agir em prol de uma mudança positiva em nossa sociedade.

E o primeiro passo para isso, é instigarmos as pessoas a abrirem seus olhos para as causas que as cercam. Quando mostramos que as contribuições para as campanhas e ações sociais colaboram para a construção de um mundo melhor, estamos estimulando as pessoas a apoiearem e comprarem a ideia da sua causa e a engajarem-se na luta por ela.

Convide sua comunidade para eventos, apresente sua OSC, aproxime o máximo de pessoas à sua causa. Ao fomentar a sensação de identificação, pertencimento e protagonismo nas mudanças sociais, você estará cativando esses indivíduos a não somente contribuírem com a sua causa, como também a agirem como embaixadores da instituição, divulgando as suas ações e campanhas.

Inspire seus apoiadores a fazerem parte da sua causa!